A DIMENSÃO SOCIOCULTURAL NA FORMAÇÃO DE
PROFESSORES PARA ATUAR NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

Magda Lucia Vilas-Boas1

Prof.Dr.Anderson Claytom Ferreira Brettas2

RESUMO

A humanidade lida de com enorme quantidade de desafios nos ambientes educacional e empresarial. A educação brasileira, desde as décadas de 1950 e, com mais intensidade, neste início de século XXI, passou por profundas transformações na forma de aprender e ensinar. Esta pesquisa faz uma rápida investigação sobre a formação e aquisição de habilidades no professor, para a construção de um sistema de ensino que influencie na emancipação social de jovens e adultos. Tem o objetivo de provocar os educadores ao conhecimento de novos paradigmas, novas abordagens em Educação. Trata-se de revisão bibliográfica para conhecimento de alguns dos principais pensadores a respeito dessa temática, suas implicações sociais e de como o jovem e o adulto podem lidar com as mudanças e reconfigurar sua emancipação social. O método utilizado foi pesquisa bibliográfica com abordagem qualitativa em que os procedimentos metodológicos constaram de revisão bibliográfica, visitando alguns autores como Paulo Freire (1982), Maurice Tardif e Claude Lessard (2008), Maturana (1990; 1997), com a pretensão de agregar reflexões como resultado de pesquisas e experiências de ensino. Concluiu-se que a importância da reflexão e ação do professor, criando um todo no sentido de formação sociocultural, para que este, em seu trabalho, possa exercer cidadania, ensinando cidadania. Os desafios explicitados no corpo do presente artigo levam a perceber que a evasão escolar, a avaliação, o ensinar para o mundo do trabalho determinam a função social da Educação na modalidade EJA/PROEJA.
Palavras-chave:. Andragogia. Ação e reflexão. Emancipação social.
INTRODUÇÃO
A grande revolução científica iniciada no século XX originou o novo paradigma da complexidade. Thomas Kuhn (1992) define paradigma como uma rede orgânica, coerente de dimensões da realidade num único processo, tendo como resultado novas teorias, quando as já
1 Mestranda em Educação Tecnológica no Instituto Federal do Triângulo Mineiro, campus Uberaba – MG - magdavilasboas@gmail.com
2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Tecnológica do IFTM, campus Uberaba - MG
existentes não são capazes de explicar novos objetos da ciência. Esta revolução provoca o rompimento do paradigma cartesiano, dando espaço a uma cultura científica, representada pelo paradigma da complexidade (MATURANA, 1990).
A Cibernética surgiu, a partir dos meados do século XX, e originou o Movimento de Auto-organização3 (DUPUY, 1996), influenciada pela físico-química de Ilya Prigogine (1996), pela nova Biologia de Maturana, a Etologia, a Antropologia e outras ciências, como a Lingüística, a Epistemologia, a Matemática, as Neurociências, a Psicologia e outras, num conjunto coeso, usando para isso o princípio do holismo epistemológico (OLIVEIRA, 2004).
A segunda Cibernética inclui o observador no sistema observado, tornando mais complexo ainda, o que implica na produção da diferença e da singularidade, mostrando o processo evolutivo em marcha. A partir dessa idéia é que Foerster (1996) desenvolveu a teoria de aprendizagem por meio do princípio da “ordem pelo ruído”, chamada “complexificação pelo ruído”.
A globalização originou profundas transformações no âmbito político, econômico, cultural, social e pessoal provocando a busca do desenvolvimento humano, emergindo um novo paradigma de construção do indivíduo com aptidões e habilidades, para que assuma o papel de ator no processo de desenvolvimento da sociedade e a Educação surge como motor propulsor.
A oferta de Educação para todos, por meio de políticas educacionais atuais, se intensifica, surgindo novas possibilidades e modalidades por meio de flexibilização de organizações, de currículos, estratégias diferenciadas: Educação à distância, melhoria tecnológica, propostas para todas as idades e situações, oferecendo ao aluno muitas escolhas. A proliferação de práticas e significados, em que a luta dos seres humanos em favor de uma emancipação social tendo como pressuposto básico a escolarização, a Educação de qualidade é realidade (BRASIL, 2001), ainda que necessite de melhorias profundas.
Em 1990, em Joimten, Tailândia, foi promulgada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, refletindo e propondo a satisfação das necessidades básicas de Educação.
[...] Relembrando que a educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens, de todas as idades, no mundo inteiro; Entendendo que a educação pode contribuir para conquistar um mundo mais seguro, mais sadio, mais próspero e ambientalmente mais puro, que, ao mesmo tempo, favoreça o progresso social, econômico e cultural, a tolerância e a cooperação internacional; Sabendo que a educação, embora não seja condição suficiente, é de importância fundamental para o progresso pessoal e social; (...) (BRASIL, 2001 p. 2,3).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE, 1996) o número de analfabetos neste ano era 15.560.260 entre as pessoas com mais de 15 anos, entre esses, a maioria formada de
3 Movimento de auto-organização, denominação criada por Jean-Pierre Dupuy significa a percepção de similitudes lógico-formais entre áreas diferentes das ciências complexas.
pessoas menos favorecidas economicamente. Fica claro que a EJA – Educação de Jovens e Adultos – representa um grande desafio no sentido de resgatar uma dívida social para com aqueles que não receberam a aprendizagem como bem social, privados de instrumento imprescindível para uma significativa emancipação social. Uma terça parte dos adultos do mundo não tem conhecimento nem acesso à tecnologia - os analfabetos circunstanciais - que ficam à mercê das mudanças sociais e culturais, sem ter ação participativa na sociedade. Há outras situações que dificultam o empreendimento da Educação Básica em diversos países, como por exemplo, o aumento sem planejamento da população, violência, degradação do meio ambiente. No Brasil isso não é diferente e, a passos muito lentos, assiste-se a busca da valorização da Educação de qualidade, ampliação de informações de importância para a melhoria da vida e da relação humana (BRASIL, 2001; AQUINO, 1997).
A Educação “pode ser compreendida como uma forma de reproduzir o modo de ser e a concepção de mundo de pessoas, grupos e classes, através da troca de experiências e de conhecimentos, mediatizados pela autoridade pedagógica do educador” (RODRIGUES, 2001, p. 73). Todo o aparato sociocultural (crenças, valores, ética, formas de organização social e de trabalho) é reproduzido pela Educação por meio de práticas de produção da vida social. E na Educação de Jovens e Adultos, mais especificamente, “tem se constituído, historicamente, em espaços e tempos pedagógicos que contemplam o direito incondicional, em termos etários, à educação e, com ela, a cidadania em seu significado mais pleno” (MAIA et al, 2008, p.6).
A tendência da Educação como profissão no seu caminho evolutivo é se tornar cada vez mais complexa, em função do desaparecimento de políticas precisas e as estruturas de controle (FOUCAULT, 1987) que fazem com que o ensino fique instável, provocando ambigüidade, contradições e conflitos. A preparação trará resultados consistentes, tornando a prática centrada na configuração científica pós-moderna. Desta forma os docentes passarão a ser vistos como os detentores de um saber fundamentado na nova cultura científica, plural, passando a ser críticos e interativos, baseado na práxis. Estes produzem seus saberes no decorrer de sua práxis educativa, aprofundando o debate sobre a identidade profissional destes atores sociais. Saberes estes que têm origem no trabalho diário, no conhecimento do meio e na experiência do docente e do discente, numa intrincada rede de relações ((TARDIF, et al, 2002; 2011).
Este artigo é motivado pela necessidade premente de se refletir sobre a formação do professor para atuação na Educação de Jovens e Adultos, no sentido de assumir responsabilidade, desafio à transformação para uma imersão no ensino-aprendizagem e, a partir de novos saberes e singularidades, “colaborar na formação de indivíduos que promovam verdadeiramente a construção de um mundo mais humanizado (Maia et al, 2008, p.7). Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos
fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (Fernando Teixeira de Andrade)4
Jean Piaget (1979), anteriormente a estes estudos já mencionados, por meio de sua epistemologia genética, traz contribuições para a Educação, que como Maturana5 utiliza um olhar biológico para entender as questões do conhecer como relação entre o sujeito e o objeto e não nos elementos separados.
Teve como objetivo da pesquisa apresentar aspectos conceituais de temas clássicos e emergentes no campo da formação de professores, com a pretensão de agregar à reflexão como resultados de pesquisas e experiências de ensino. E também, provocar os educadores ao conhecimento do novo paradigma, das novas abordagens em Educação para uma desestabilização e reconfiguração da formação e prática do professor do século XXI.
METODOLOGIA
A metodologia de pesquisa foi revisão bibliográfica sobre o assunto, visitando diversos autores, com maior ênfase em Maturana (1990), Paulo Freire (1982), Maurice Tardif e Claude Lessard (2008). Optou-se pela abordagem crítica e contextualizada do ato de ensinar pela necessidade de ruptura de uma visão mecanicista e integração numa postura de compromisso com sua função social mediante conhecimento das relações entre escola-sociedade e aprendizagem.
DISCUSSÃO
As formas de aprendizagem no ensino da modalidade EJA devem ser diferenciadas. Os adultos possuem habilidades e dificuldades especificas, formas singulares de aprender. Há a necessidade da valorização da experiência pessoal, das suas dificuldades com referência à abstração e à sistematização dos conteúdos. E para isso o professor deve estar preparado.
4 ANDRADE, Fernando Teixeira . In: O medo: o maior gigante da alma. s/e, s/d. Disponível em:
http://64.233.167.104/search?q=cache:-bXQ-gz-fM0J:www.tex.pro.br/wwwroot/00/070615efetividade_igor.pdf+H%C3%A1+um+tempo+em+que+%C3%A9+preciso+abandonar+as+roupas+usadas+Professor+Fernando+Teixeira+Andrade&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=4&gl=br . Outras fontes: http://www.billiefabruz.blogger.com.br/2004_04_01_archive.html . Acesso em 28/9/2015.
5 Maturana amplia e aprofunda a idéia na elaboração da autopoiesis, eixo teórico que deu origem à dimensão da complexidade (MATURANA, 1997).
Escola vive uma crise e que o ofício de professor passa por uma revisão profunda, uma vez que apenas aquisição de teorias que, repassadas aos alunos, já há tempo é insuficiente para preparar o ser humano e o profissional do futuro. Isto porque se vive num mundo cada vez mais exigente, competitivo, com mudanças profundas e aceleradas, com o advento da tecnologia e com a globalização. E o professor deve se preparar para este desafio, deve se profissionalizar e se inserir no aprendizado constante, além de se tornar pessoa humanizada para conseguir lidar com todos os desafios. Assim, a tarefa do docente é construir o saber por meio da estreita relação com as práticas sociais e com o processo de construção social da realidade por meio da reflexão. (Schon, 2000).
Freire, (1982) enfatiza que o esforço do professor deve orientar para a criação de possibilidades, de formatos diferentes para não só transmitir conhecimentos como também na sua superação, como professor na concepção de Educação como uma situação que desafie a pensar, inserido na sociedade, que propicie o diálogo comunicativo e que instrumentalize dialeticamente o professor e o aluno. Cury (2002) percebe a Educação de Adultos como direito, exercício de cidadania, sem o qual não se consegue desenvolvimento socioeconômico e científico, igualdade e justiça. Para isso faz-se necessário o acesso às informações e aprender a avaliar criticamente os acontecimentos (IRELAND, 2009, p.36).
CONCLUSÕES
Atualmente muitos são os professores que buscam ampliar o conceito de educador, incorporando ao trabalho e à reflexão sobre o tema, os jovens e adultos que, estando no sistema de ensino regular, são submetidos a propostas e práticas inadequadas tanto aos seus perfis socioeconômico-culturais quanto às suas possibilidades e necessidades reais. Isto ocorre porque a tendência predominante das propostas curriculares é a da fragmentação do conhecimento, do professor e dos livros didáticos como “donos do Saber” e a da organização do currículo numa perspectiva cientificista, excessivamente tecnicista e disciplinarista. (OLIVEIRA, 2007, p.23).
Há ainda muito a se fazer em termos de transformação real da profissão de professor. E a Didática é a forma de que o professor precisa se apoderar para provocar resultados relevantes no processo ensino-aprendizagem. Os debates provocativos, a pesquisa e reflexão sobre a formação de professores, as estratégias decisivas da Didática ainda são poucas e pobres e soam como “um notável silêncio na comunidade escolar científica e trabalhadora...” (SANTOMÉ, 1998, p.11).
Portanto, conclui-se que há de preparar os professores no sentido de mudança de paradigma, fazendo-os a se transformarem em detentores de conhecimentos fundamentados na cultura científica atual, plural, tornando-os críticos, interativos, por meio de sua práxis e em contato constante com debate sobre a identidade do professor, que é ator social, inserindo-se numa intrincada rede de relações.
Assim, foram pesquisados assuntos de suma importância, criando um todo no sentido de formação sociocultural do professor para que este, em seu trabalho, possa exercer cidadania, ensinando cidadania. Os desafios explicitados no corpo do presente artigo levam a perceber que a evasão escolar, a avaliação, o ensinar para o mundo do trabalho determinam a função social da Educação na modalidade EJA/PROEJA (RIBEIRO, 2001). Há muito ainda a se fazer e os maiores desafios ainda residem na preparação de currículos e desenvolvimento de habilidades para o mundo do trabalho, nas questões de formação do professor de EJA, na avaliação como diagnóstico da aprendizagem e da docência e na evasão escolar e, consequentemente na responsabilidade social da Escola.
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