EDUCAÇAO ESCOLAR E CONTEMPORANEIDADE: complexidades, diversidade e ensino
religioso1

Magda Lucia Vilas-Boas2

Resumo

A contemporaneidade consta de avanços da revolução científica, da tecnologia, produção de bens e
serviços e globalização, com implicações na educação com desafios enormes. As políticas educacionais
determinam, participação social e política, valorização da pluralidade cultural, características étnicas e
respeito às diferenças. Pretende-se analisar as questões envolvidas na disciplina do Ensino Religioso nas
Escolas, como coadjuvante na formação humanística e cidadã do aluno.
Palavras-chave: Contemporaneidade. Educação. Ensino religioso.
Abstract
The contemporaneity consists of advances in scientific revolution, technology , production of products and services
and globalization , with implications for education with enormous challenges. Educational policies determine,
social and political participation, valuing cultural diversity, ethnic characteristics and respect for differences.
Educational policies determine, social and political participation involved in the discipline of Religious Education
in Schools, as an adjunct in humanistic and citizen formation of the student.
Keywords: contemporaneity. Education. Religious education.
INTRODUÇÃO
O paradigma mecanicista, trouxe a fragmentação do conhecimento. Edgard Morin
(1986; 1990) chama de reducionismo a visão unilateral e dividida dos fatos, provocou na
humanidade a “unidimensionalização” (MORIN,1990. A transição de paradigma provoca
reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico, com proposições sobre o estudo das
condições sociais, da cultura, das organizações e da investigação científica (MOLES, 1971). A
acelerada produção de bens e serviços, que tem proporcionado novos paradigmas na forma de
trabalho, de aprender e de ensinar, como resultado de transformações profundas na tecnologia
e nas organizações, levando a sociedade a lidar com enorme quantidade de desafios, nos
ambientes: educacional e empresarial (AFFONSO, 2003). O paradigma da complexidade
compreende a visão de totalidade; pretende incorporar na educação a formação integradora,
crítica e coletiva (SANTOS, 1988; CAPRA, 1982 e 1996; MORAES, 2008 e 2011; MORAES,
1978; MORIN, 2000). A humanidade testemunha um “novo equipamento coletivo de
sensibilidade, de inteligência, de relação social” (LÉVY, 1994, p.03).
1 Trabalho apresentado no Eixo Temático 6: “Perspectivas Históricas de Educação” do I Congresso Internacional
de Educação, realizado pelo PPGE da Universidade de Sorocaba, no Campus Cidade Universitária – Uniso –
Sorocaba, SP, nos dias 24, 25 e 26 de outubro de 2016.
2 Mestranda em Educação Tecnológica pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro – Uberaba/MG.
magdavilasboas@gmail.com
A reforma educacional vigente impõe a construção de cidadania, em que o cidadão tenha
o direito de alcançar seu pleno desenvolvimento e sua preparação para o trabalho (BRASIL,
1988, art. 205. A partir da Declaração Mundial sobre Educação para Todos (BRASIL, 1991), a
reflexão sobre a diversidade cultural na educação escolar se torna um imperativo, trazendo para
a Educação a responsabilidade de desenvolver e ensinar a respeitar a herança cultural da
população. As questões relacionadas à diversidade passaram a ter dimensões ampliadas por
meio de políticas educacionais: 1. Na Constituição 1988, no artigo 214, artigo 215, § 1º; 2. A
LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira) (BRASIL, 1996, art. 1º). 3. os
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, (BRASIL, 1992). 4. Nos Temas
Transversais sobre pluralidade cultural, (BRASIL, 1977). 5. As metas III, IV, VII e X do PNE
(Plano Nacional de Educação), (BRASIL, 2014). 6. Nas Diretrizes Curriculares Nacionais para
o Curso de Pedagogia (BRASIL, 2006) no artigo 4; 7. A Conferência Nacional de Educação de
2010a (BRASIL). Essas políticas determinam uma prática escolar que contemple a diversidade
cultural como forma de multiculturalismo em que se torne ambiente de convivência pacífica,
democrática e respeitosa, com a multiplicidade de culturas presentes neste contexto (UNESCO,
2002). E a diversidade religiosa é um dos aspectos da diversidade cultural, que deve ser
trabalhada na Educação Básica, por meio da interdisciplinaridade, no intuito de formar cidadãos
que respeitem as diferenças culturas e consigam superar a discriminação e o preconceito,
evitando assim, a exclusão, a intolerância e a violência.
A religião faz parte da cultura humana, presente em todos os povos, em todas as épocas
históricas. A questão da disciplina de Educação Religiosa na Escola tem mais ou menos 400
anos de existência, em termos dos conflitos entre igreja e estado, no Brasil. Encontra-se nos
PCNs (BRASIL, 1997, p.21) a designação da disciplina Ensino Religioso como “uma reflexão
crítica sobre a práxis que estabelece significados” aos alunos. Esta disciplina tem sido muito
questionada e, ao mesmo tempo, passa por um processo de transformação de disciplina menor
a disciplina reconhecida pela legislação, condicionada ao Projeto Político Pedagógico da
Escola, em conexão com as práticas inter e transdisciplinares. Com a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, em 1948, o Artigo 18, firma a ideia de que todo ser humano tem o direito
“liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença,
pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público
ou em particular” (BRASIL, 1998).
Esta pesquisa teve a proposta de conhecer como a educação escolar lida com os
diferentes desafios contemporâneos e de buscar meios que atendam aos recentes paradigmas
referentes às formas de trabalho, de aprender e de ensinar, na formação e emancipação humana,
na promoção da cidadania e relações sustentáveis entre as diferenças. A pesquisa teve como
propósito pesquisar a educação escolar na contemporaneidade e a disciplina de ensino religioso.
Justifica-se pela importância de refletir a educação escolar e a disciplina de ensino religioso. O
problema: Como formar para o exercício consciente da cidadania e convívio social baseados na
alteridade e respeito às diferenças, por meio das relações da escola com a contemporaneidade,
de diversidade cultural, interdisciplinaridade e valores humanos, na era da complexidade por
meio da disciplina de Ensino Religioso? O objetivo proposto foi: Investigar sobre a educação
escolar e contemporaneidade e ensino religioso, como abordagem interdisciplinar para o
desenvolvimento de valores, relações pacíficas, inclusão e cidadania na escola brasileira. O
objeto da pesquisa foi a investigação da educação escolar na relação com o contexto social por
meio da disciplina de Ensino Religioso.
O referencial teórico constou, principalmente, dos seguintes autores: Edgar Morin
(1986; 1990; 2000; 2001; 2005), Lyotard (2000) e Bauman (2001; 1998), referente ao pósmodernismo,
à Interdisciplinaridade, teoria da complexidade e os saberes necessários à
Educação. Humberto Maturana (1997), sobre autopoiesis, emoções e o saber científico. Tardif
& Lessard (2002; 2008;); Nóvoa (2009) e Schon (1995), sobre a formação do professor. Outros,
Multiculturalismo, Valores Humanos, inter e transdisciplinaridade (FAZENDA, 1988; 2003),
educação escolar e ensino religioso (JUNQUEIRA, 2002; SILVA, 2013; SCAMPINI, 1978 e
KADLUBITSKI, 2010). Foram utilizados livros, artigos, dissertações e teses, em pesquisas online
no sistema Scielo, além de entrevistas em 4 escolas da cidade de Uberaba/MG.
Concluiu-se, por meio de entrevistas, e pesquisa em projetos pedagógicos de 4 escolas
públicas da cidade de Uberaba, que a disciplina de Ensino Religioso faz parte da grade
curricular das escolas brasileiras, desde o período imperial, mas é marcada por uma aparente
omissão da União em relação à definição de conteúdos e critérios de formação docente. Esta
ausência de orientação legal abre espaço para a atuação de outros grupos, privados,
principalmente cristãos, na propositura da disciplina no espaço público, a escola pública. Foram
detectados três modelos de Ensino Religioso: confessional, interconfessional e não
confessional, além da concepção laica de ensino. Percebe-se também, que as propostas de
formação de docentes para esta disciplina tem sido ofertadas pela rede pública e particular, de
diferentes formatos, dissonantes entre confessionais e não confessionais ou, ainda,
interconfessional. A laicidade do Estado brasileiro, não se afirmou ainda, na prática, uma vez
que a educação perde autonomia, diante da expansão das religiões.
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