Ela era magra, loira, olhos serenos, mas profundos. Fisionomia nórdica. Falava cadenciadamente, numa pronúncia clara como a sua pele. Em meio a substantivo, verbos e advérbios, caminhava com a sala, trilhando as ladeiras da língua pátria, tão cheia de armadilhas prontas para nos pegar, com seus verbos irregulares, plurais inconstantes e orações que insistiam em subordinar a nossa lógica de criança.

Uma figura sempre aparecia. Volta e meia dava as caras. Era o Pafúncio.Nome estranho para nós, tão acostumados aos Joões e Marias. Pafúncio conhecia objetos diretos e verbo intransitivo. Estava sempre no meio deles, protagonizando, com voz ativa os agentes da passiva, que éramos nós, sempre passivamente entediados com a parafernália de regras e suas inexplicáveis exceções.

Mas havia um momento em que essas confusões ficavam para trás, quase que esquecidas. Era quando ela nos convidava à leitura. E não era qualquer leitura. Era aventura, porque “dicionário não serve para ler” e palavras que ninguém entende são como as camuflagens dos desonestos que querem esconder seus feitos. E tome Monteiro Lobato, Lygia Bojunga, Edgar Rice Burroughs.

E da leitura, como quando escutamos as histórias e ficamos com ânsia de falar tendo que ouvir, surgia a vontade de escrever. Mas, “o que escrever” pensava eu. O que der na telha, o que quiser, não importa se os outros vão ler, se vão gostar. Era o que ela dizia, observando-nos com aqueles olhos miúdos. O nariz era fino, como as mãos.

O tempo foi passando e muitos momentos vivenciamos, anos a fio. A gramática agora estava dentro daquilo que escrevíamos. Não precisávamos mais do Pafúncio, embora o ressuscitássemos, quando a pena pedia.

Ela morava longe, estrada de terra. Um dia viajou para a terra ancestral. Voltou com roupas típicas. Lembro-me de uma marrom, com lacinho no pescoço. Parecia até escoteiro. Acho que ela gostava desta. Quando o tempo de partir chegou, foi uma tristeza, mas eu já carregava em mim o poder da palavra, que ela helveticamente me havia ajudado a descobrir. Tempos depois, já mais crescido em conhecimento e vida, reparei distante o seu lado político, questionador, engajado. Fundou escola, deu nome a uma, brigou com o sistema. Impressionante.
Um dia, como diria o Pafúncio, ela “partiu fora do combinado”. Viajou para mais longe. Palavras foram ditas, escritas e sepultadas. Que eu saiba não teve amores. Desses, que a gente leva para o altar. Mas o meu ficou. E se não fosse por ele não poderia escrever, que “aprendi com você, minha professora, a dominar, ainda que miseravelmente, a minha língua, aquela que ajudou a forjar em mim a sua teimosia em defender dos modismos e estrangeirismo, a cultura brasileira”.

Prof. Emídio Claro de Oliveira Neto.